Fragmento da obra
Uma janela para o Contrário
Parte 2
A SEMENTE
A janela não era muito grande, já que nem mesmo o espaço para a geladeira era, mas ela se diferenciava em tudo dos pequenos olhinhos redondos da sala de estar. Era retangular, sem nenhuma grade, com batente de madeira maciça — Mel não sabia disso ao certo, mas
imaginou que fosse, já que o cheiro era de algo novo e aconchegante. Mas de uma coisa ela tinha completa certeza: havia uma janela atrás de sua geladeira na cozinha, onde deveria estar o restante dos azulejos amarelos. E a paisagem por trás daquela janela não era nada natalina.
Do quarto andar, a vista era de um campo verde, grande demais para a lateral de seu prédio. Era muito grande para caber nos fundos, na frente, ou em qualquer lugar, na verdade — especialmente no quarto, o cômodo que aquela parede da cozinha fazia divisa. Toda a paisagem da janela era de tirar o fôlego, principalmente pelo início do pôr do sol, que coloria o topo das árvores com um amarelo-esverdeado e, de alguma forma, cheirava a aventura. Até Mel se sentiu um pouco mais colorida. Árvores com folhas muito verdes e frutos muito grandes pareciam estar meticulosamente posicionadas; as cores se distribuíam de forma que assemelhavam-se a um quadro sendo pintado. O que fez Mel duvidar de tal pensamento foi o barulho sereno e pacífico do rio que corria atrás daquilo que mais chamava a atenção da moça na janela. Havia uma grande árvore, com um tronco robusto e forte; majestosa o suficiente para assustar, esplendorosa o suficiente para fazer com que qualquer um desejasse se aproximar. Suas folhas eram inúmeras, e seus frutos, grandes e, aparentemente, muito suculentos.
Como se lembrasse que a função de permanecer congelada não era sua, mas da geladeira que se encontrava no meio de sua sala, Mel espremeu os olhos fortemente, e voltou a abri-los. Ela já havia escutado histórias a respeito de situações assim, visões impossíveis, pessoas achando que viram algo que nunca esteve lá...
— Eu não tenho tempo para isso! — Suas mãos foram de seus olhos para as bochechas, segurando o rosto para ele não cair junto com o seu coração.
Na realidade, Mel percebeu que seu coração não havia despencado, mesmo tendo todos os motivos para isso, pois ter uma janela inesperada em sua cozinha poderia ser um problema ou com o apartamento ou com a sua cabeça. O seu coração, no entanto, se alegrava, e sentia algo parecido com o que sentira na noite anterior, ao ver as crianças esperançosas com o carro alegórico sem graça. Sim, sem graça, era o que Mel havia achado. Em comparação àquela ali, bem à sua frente, sem grades, com cheirinho de madeira... nada no mundo teria graça.
Ela fez, então, o que qualquer pessoa sã faria — não necessariamente nesta ordem, mas imagino que a sanidade seria testada em primeiro lugar. Mel caminhou até o seu quarto em passos largos. Foram uns quatro, no máximo. Chegando lá, ela não viu a janela na parede que divide o cômodo da cozinha. Nada de buraco, nada de batente, nada de nada. Mel bateu com o punho na parede, como se soubesse o que estava fazendo, esperando que
fragmentos de tijolos caíssem aos seus pés. Ainda nada.
Ela saiu do quarto, e foi olhar pelos olhinhos redondos da sala, tentou, ao menos. As grades não a deixaram colocar a cabeça para fora, e nem precisavam. Ela sabia que por todos os lados existiam prédios com outras pessoas morando. Mel suspirou, e apoiou a testa na grade fria. De dentro da bolsa enorme, ela ouviu o seu celular vibrar fortemente. Ao alcançá-lo, a moça viu mais uma mensagem do corretor de imóveis:
“Boa noite, Mel, como está? Tudo certo com a geladeira?”
Mel não hesitou antes de responder à mensagem, ignorando a pergunta:
“Jefferson, você sabe se existe alguma janela escondida no apartamento?”
Assim que enviou, ela sacudiu a cabeça e voltou a digitar:
“Quero dizer... será que existe alguma janela além daquelas que estão na sala de estar e no quarto?”
Alguns minutos depois, Jefferson respondeu:
“Verifiquei no contrato e, pela descrição do imóvel, são apenas essas janelas mesmo. Particularmente, também não me lembro de outra... você quer adicionar uma janela, é isso? Eu preciso checar com o proprietário.”
Mel suspirou antes de responder:
“Não, tudo bem. Deixa para lá.”
No mesmo segundo, Jefferson adicionou:
“E a geladeira?”
Mas Mel resolveu ignorá-lo. A geladeira, que representava o seu maior problema naquela manhã, tornara-se um simples móvel deslocado que poderia muito bem fazer amizade com o sofá e permanecer na sala de estar. Mel conseguiria se acostumar com isso. Agora, quanto à janela, se tratava de algo impossível, e não há costume para coisas impossíveis.
Isso acontece porque quando nos acostumamos com algo, aquilo deixa de ser impossível. Em diversos casos, o que uma vez já foi impossível, hoje não é mais, pelo simples fato de o costume ter entrado em nossos olhos e construído ali a sua casa. Seria impossível o céu ser verde e a grama azul, porque olhamos para cima e vemos o céu azul, e quando abaixamos a cabeça, vemos a grama verde. E se fosse ao contrário? Se o céu fosse verde, acharíamos impossível ele se tornar azul; da mesma forma, seria impossível para a grama naturalmente azul se tornar verde. Que confusão teríamos se aquilo com o que estamos acostumados fosse outro costume, porque nem iríamos nos lembrar ou cogitar qualquer outra possibilidade, então o céu teria que ficar verde.
Apesar de ser interessante, o problema de Mel era outro. O céu continuava azul e a grama verde — tanto fora das janelas redondas de sua sala, quanto da janela retangular na cozinha. Talvez tenha sido a curiosidade por tudo parecer normal demais que fez a moça se aproximar do batente de madeira. Aos poucos, ela reparou que o cheiro amadeirado de fato era bom, e não apenas isso. Tudo ali parecia bom. Os aromas, os barulhinhos suaves dos grilos, a correnteza do riacho... Até mesmo o que estava atrás das grandes colinas, e ela nem sequer conseguia ver da janela. Logo, as coisas passaram a desaparecer de vista; os últimos raios solares com cores alaranjadas foram como pincéis que varriam a luminosidade de toda a extensão de grama.
Ela colocou as mãos no batente da janela, e como se aquele pequeno universo guardado em um retângulo dentro de sua cozinha soubesse disso, uma brisa suave fez seus cabelos pretos voarem para trás dos ombros. Não era nada agressivo, acelerado, como se a corrente de ar buscasse chegar a algum lugar antes de anoitecer. Não, aquilo era diferente, e Mel sabia disso. Era um sopro quentinho, que acolhia, consolava, e fez Mel perder a vontade de investigar a janela para apenas ficar debruçada sobre ela enquanto o dia
findava. Logo a noite chegou e, com ela, uma voz.
— Olá.
A voz era masculina e serena, não tão grave nem tão antiga. Era uma voz agradável, que Mel pensou estar dentro de sua cabeça, até se lembrar de onde estava apoiada. Ela ergueu o pescoço, cogitando responder, mas sentindo um pouco de vergonha. Se fosse coisa de sua cabeça, pareceria estúpida para as colinas verdes, pensou. Mesmo assim, resolveu tentar. E ainda bem que tentou, caso contrário, a história terminaria aqui.
— Oi.
— Quem você é? — a voz respondeu quase de imediato, com uma leve curiosidade.
— Você está atrás da árvore? — Mel esticou a cabeça, tentando encontrar, seja lá quem estivesse falando com ela, atrás do grande tronco.
— Eu sou a árvore.
Mel congelou. Em uma situação comum, sua mente analítica jamais a deixaria nem sequer cogitar acreditar em algo assim. Histórias para crianças têm este nome por um motivo: são para crianças. Ao menos, é o que ela pensava, ainda que que estivesse errada (mas logo ela descobrirá isso, também). A moça respirou fundo. O som do riacho seguindo seu rumo,
calmamente, debaixo do céu estrelado, fez Mel decidir continuar a conversa.
Tudo parecia muito real para ser uma invenção de sua mente nada fértil ou criativa. E, na melhor das hipóteses, havia uma pessoa escondida atrás da árvore que se revelaria quando estivesse pronta.
— Certo. — A mulher ajeitou a postura, como fazia quando direcionava as reuniões em seu trabalho. — E como você pode falar?
— Todos aqui têm voz.
— Todos?
— Sim. Árvores, animais, até mesmo o ribeiro aqui ao lado já falou comigo uma vez.
— Sempre achei que árvores e animais falantes fossem coisa de criança — disse, sendo sincera.
— E são. Sem o coração de uma criança você não consegue ver o lugar de onde eu vim.
Mel hesitou, pois não sabia se tinha o que era necessário para ter aquela janela em sua cozinha. Só que, naquele momento, com o som dos grilos ao longe, e a brisa ainda dançando com seu cabelo, ela queria ter.
— Eu sou a inquilina desse apartamento — disse, apresentando uma resposta à questão que a árvore havia feito no início da conversa. — Você perguntou quem eu sou. E você, quem é?
— Eu já disse, sou a árvore. Prazer em conhecê-la, inquilina.
— Como sabe que é a árvore? — Mel instigou, seja lá quem fosse, a sair de trás da árvore e dar as caras.
— Porque me disseram que sou.
— O que os outros dizem sobre você não importa.
— Depende de quem diz.
— E quem disse a você que é uma árvore?
— Aquele que me plantou.
Mel não tinha como discutir com aquilo, porque, por mais que sua mente lutasse, encontrava sentido nas palavras da árvore.
— Entendi. — Isso foi tudo o que ela conseguiu responder.
Mel lutou para buscar um assunto em sua mente e continuar o diálogo naturalmente, mas a voz masculina da árvore foi mais esperta.
— Você entende o que vê?
— Aqui na janela? — suspirou. — Bem, sim, eu acho. É um campo lindíssimo, saudável... que simplesmente apareceu em minha cozinha — completou, voltando à realidade.
— O que você vê não é tudo. Por isso, às vezes, nós precisamos de alguém que nos diga aquilo que não vemos.
Ela hesitou. Se tudo aquilo que ela podia ver de novo e inesperado não era tudo, talvez realmente estivesse sonhando. Talvez tivesse caído no caminho para casa e batido a cabeça no chão, e agora estivesse em um hospital desacordada. Ou, talvez, tudo aquilo fosse real; a brisa suave em seu rosto a lembrou.
— E o que eu não vejo? — perguntou.
— Você vê a árvore que eu sou, mas não vê que um dia fui uma semente. Eu caberia na palma de sua mão, até mesmo entre os seus dedos. Tudo o que eu poderia vir a ser já estava ali, mas nem mesmo todos os meus esforços fizeram aquela sementinha estourar como uma pipoca na panela e começar a germinar.
— Você sabe o que é pipoca? E panela? — Mel interrompeu, investigando.
— Sim. Existem plantações de milho por aqui. As notícias correm soltas.
— Entendi. Perdão, continue.
