Fragmentos da obra

Canção Nupcial

Eu era uma adolescente com reminiscências de menina,
Ia vivendo a vida automaticamente,
sem sonhos, sem fantasias, sem iniciativas.
Ele veio!
Chegou e levou-me para o altar,
e levou-me para um pequenino lar entre arvoredos,
Encontrou para nós este lugar de contagiosas doçuras,
com cheiro de flor, com cheiro de mar.
Eu fui deixando que tudo acontecesse…
e só vejo rosas em meu caminho !
E tanta a alegria de viver que me sufoca
e receio não poder contê-la.
Respiro de mansinho para que ele não transborde.
E tamanha a felicidade que me põe doida,
deliciosamente doida.
Sinto tudo novo,
estranho, quase saboroso:
Quero beber o ar que respiro;
beijar a canção do meu canário;
acariciar as sombras da noite;
reter em seus dedos esses raios de sol
que estão doirando tudo lá fora …
quero debruçar-me no tanque e ver dentro dele
flores e folhas, o céu, meu rosto
meus cabelos a tremerem e meus olhos que se deformam,
desaparecem e tornam a instalar-se.
Quero perfumar, com essência de gardênia,
a camélia inexpressiva e indiferente.
Dar um lustro bonito em cada uma das
suas folhas envernizadas de verde.
Quero encontrar-me com as grandes auroras,
e estar de sentinela.
Para o esplendor preguiçoso do crepúsculo.
Repousar com a suavidade do sereno
esgueirando-se pela minha janela
– e o sereno tem a cadência dos insetos.
E a felicidade !
Ela veio regiamente com todas as suas credenciais
– estuante de alegria e de bondade,
exuberante de inteligência e sapiência,
exultando de amor,
magnificamente bela.
É uma fada boa com o poder da beleza,
de colorido radioso e aroma de primavera,
que tudo transforma,
que torna tudo bom e perfeito.
Creiam, ela está aqui.
Plena.
Com toda a sua pujança.
Com toda a sua potência.
Venham vê-la.
Franqueio a todos a minha porta.


Venham ver como ela está rindo e palpitando em cada canto,
em cada sopro de vida,
deixando o ar mais leve,
o sol mais quente,
anilando o céu distante,
brincando com as rosas, com o canário,
com os meus cabelos,
distribuindo corações e vida a todas as coisas.
Ela fica adejando de seu cachimbo para as minhas flores,


de seus livros para o meu piano,
dos meus olhos para seu sorriso
e de tudo isso para nossos beijos.
Felicidade!
Quero saboreá-la todos os segundos,
pois dizem que é efêmera.
Não sei.
Vivo o presente, porque agora ela está aqui
dando-se generosamente e eu sei senti-la...