Fragmentos da obra
Já é tarde
A velhice chegou
Tão leve de mansinho
A alvorada do amor,
o canto,
a melodia,
tudo foi outro dia
tão próximo, tão bom.
E tanta fantasia;
Hoje, os sonhos já mortos.
E agora, a nostalgia,
o cansaço, o amargor.
E sentir que vai longe
a grande procissão
das ilusões já mortas.
E que ninguém me espera
Na curva do caminho.
Que tudo terminou
Que a neve vai chegar
de manso, de mansinho
E sentir nos braços já cansados
um vazio sem igual.
E no olhar fatigado
um brilho de esperança
uma réstia de luz
de luz que foi farol.
E o coração ansiado
batendo, em melodia,
o compasso final
da grande sinfonia
da vida que é fugaz etérea a fugida.
E nada mais sonhar
E um vácuo intraduzível
A mais se aprofundar.
E tudo escurecendo.
As flores fenecendo.
E o crepúsculo eterno
imenso
assustador
tão prestes a chegar.
E a vida que é tão bela
intensa, fúlgida,
nos prados nas colinas
nas várzeas nas campinas
no risco da criança
na festa da esperança
Eterna a palpitar...
O espelho
O chinelo encostado.
O pijama pendurado.
O mudo olhar do retrato parado.
E todo o horror do espelho sem imagem.
O espelho de outrora,
Gaiato, a sorrir
Da barba rebelde
E escura
Do vulto amado,
Que ele não esquece
E que ficou no passado.
E agora,
O espelho mudo e frio
A rir,
Das faces que não são as suas,
Do olhar, que é outro.
E me deforma,
E enfeia,
E expulsa do aço frio
O outro rosto angustiado,
E clama, reprimido,
Pelo bem esquecido,
Pelo mudo olhar do retrato parado.
O meu poema
Eu fiz um poema para você.
Era um poema tão lindo, meu amor!
E teci-o de pedaços de minha alma.
Em cada estrofe viveu toda a grandiosidade dos meus anseios,
toda a infinita ternura de meus sonhos primaveris.
Era tão lindo o meu poema!
E você veio para ouvi-lo.
Você se sentou ao meu lado e suas mãos estreitaram as minhas
mãos nervosas.
Você olhou fundo nos meus olhos cismarentos!
Você fitou-me mais, mais ainda, e comecei a sentir que um
denso véu escurecia tudo ao meu redor.
E o papel perfumado em que tecera a magnificência do meu
poema bonito, o papel caiu-me das mãos lentamente, muito
lentamente…
E não li para você o verso emotivo da minha felicidade.
É que na luz ardente de seu olhar eu encontrei, toda cintilante,
a chave de ouro para o meu poema, para o poema do meu
grande amor!
Um só
Quando eu me for, um dia,
de mim que restará?
Um gesto, uma saudade,
uma frase perdida,
um hino de esperança,
um brado de renúncia,
e o mais, o que será?
Ensinei a ensinar,
Um aluno me ouviu
De mim se lembrará?
Um que seja, talvez,
e ficarei feliz.
E então, reviverei,
e a morte, que aniquila,
jamais lhe atingirá
E nele hei de viver.
E o arauto da vitória
em brados cantará.
E falarei aos vivos.
E vencerei a morte.
E gritarei em ais,
a frase renovada
que nunca morrerá.
Um aluno que me ouviu
E o mundo escutará.
