Fragmento da obra

Falaremos por nós

Dizem às más línguas que vão cancelar Cinderela e a bela adormecida.

Por mim que cancelem. Sempre fui Alice no país das maravilhas.

Dizem as más línguas que o autor era pedófilo.

E que a jornada de Alice é nada mais que sua jornada de abuso.

Da garotinha encantada e medrosa a Rainha má que abafamos.

Não discuto. A mulher hão sempre de definir por ela.

A falsa crença de que somos incapazes.

A falsa crença de que não desejamos. A pureza do que abnega.

Decidiram por nós que devemos seguir a natureza e parir.

Mas enquanto a mãe leoa termina sua tarefa em meses.

Nós desumanamente seguimos para sempre.

Sirenes de ambulância e abandonos fazem a noite.

Decidiram por nós que devemos cuidar dos velhos da família.

Sem aproveitar a fragilidade dos ossos para gravar memórias.

Decidiram por nós que não seríamos violentas.

Mas nos chamam de cobra quando nos defendemos.

Decidiram por nós que não teríamos vícios ou apegos.

E que poderíamos ganhar presentes pela virtude.

Decidiram por nós que o espírito é mais importante que a carne.

Mas só nos querem a carne.

Tomar nossas próprias decisões é uma revolução.

Não é necessário lei para que eu seja bem tratada.

Basta não aceitar ser maltratada.

A liberdade nasce no corpo.

Para ser livre é preciso saber que ele, o corpo, é parte.

A liberdade tem o mesmo verbo no corpo, na mente, e no coração.




Aguarde! Em duas horas!

Um corpo de mulher. O corpo não anda. O corpo não fala.

O corpo não dança. O corpo não cala.

O corpo sem vida

Da menina, da mulher.

Da temente e da prostituta.

O corpo não se esconde.

O corpo emerge.

Noticiários exibem o corpo para apreciação pública

O corpo feminino é público.

A cada duas horas.

O corpo no noticiário local.

O corpo não cala! Não consente!

O corpo sem vida e sem calcinha

Daqui a duas horas. Não perca

No noticiário mais um corpo feminino

Abrirá para visitação pública.