Fragmentos

Mensagem na garrafa

Foi em uma mensagem criptografada que ele me pediu
Assim, como quem pede um trago
pretensioso,
malicioso até os dentes
Me pediu inteira,
Por algumas horas
Pelo resto dos dias
Talvez pela eternidade

E o que eu fiz?
Ah, o que qualquer um faria
Eu sonhei, acordada, dormindo, desperta com cada célula já
na sua saliva
Imersa no pacto de sangue
Nua, entregue, descoberta

E nesse plano,
Apenas nesse plano multidimensional da fantasia
Eu fui sua como um dia seria

Se bem me morro

De amor, que seja
De cólera, talvez
De ciúme, provável

Bem me morro
Do sopro do instante
Do imediatismo de querer-te
Como era antes

Um desejar simplesmente
Lábio com lábio
Um cochilo no teu peito
E assim me morro em teus braços

Ode ao ser mortal

Sois imortal quando ensinas
O canto aos pássaros
Os poemas aos iletrados
O amor a quem vos ofende

Sois imortal quando seus olhos refletem o outro
Suas palavras são ditas pelos teus frutos
Quando o escuro não temes e nem silencia sua voz que a
injustiça não cala

Sois imortal pelo tato
Pelo toque, pelo riso, pelo grito
Por suas atitudes de mortal que erra
Que aprende, que sofre, que fica

Embriaga-te, imortal, com a finitude da vida e a imortalidade
de tudo o que cria!

Se essa rua fosse minha

Seria de pedras disformes, imperfeitas
Se chamaria Jezebel
Exalaria perfume de jasmins brancos
Seria a caminho do mar

Se essa rua fosse sua
Teria grama aparada,
Cheiro de café na esquina
Daria acesso à cidade grande
Conectaria pessoas e a indústria

Mas se essa rua é nossa
De um lado, temos o mar
De outro, cabe um mundo
No meio tem nossa casa
Tijolinhos à vista e vidro
E crianças jogando bola em frente
Cachorros latindo ao som de Caetano
Sem nome próprio
A rua é nossa e de toda a gente

A Lua perguntou ao Mar:
Quando eu te beijar, continuarás a refletir meu brilho?
E o Mar respondeu:
Isso depende de ti. Quando nos encontrarmos, tu continuarás a brilhar?
A Lua pensou, pensou e finalmente disse:
Talvez, se conseguires conviver com minhas fases. Na fase plena, estaremos envoltos em luz, refletindo o que há de mais belo em cada um de nós, pelo dia, pela noite. Mas, e na fase "sombra"?
O Mar não titubeou:
Quando minguares eu te acolherei em minhas ondas e ficaremos no escuro do Mundo descobrindo os segredos um do outro. E então retornarás mais cheia e vibrante, porque é nos segredos compartilhados que guardamos nossa maior força.