Fragmentos

BRUXAS, BABY BLUES E O PACTO MISÓGINO

   Março chega com diversas atividades voltadas ao dia internacional da mulher. Muito a se lutar e nada a se comemorar. Ainda assim, tem muita gente que trata a data como uma celebração. Enquanto rosas e bombons são distribuídos, os índices de violência alcançam recordes, infelizmente. Mas o 8M é tempo de debate, de reflexão, de repensar padrões e paradigmas e buscar uma sociedade segura para as mulheres, para todas as mulheres, em suas mais variadas realidades e circunstâncias. E uma boa opção para refletir e falar a respeito é o cinema. Witches (2024), de Elizabeth Sankey é um documentário que consegue ser delicado e, ao mesmo tempo, profundamente doloroso. Ao tratar de um tema que ainda é tabu, Sankey consegue trazer um ponto de vista intimista, já que fala muito dela mesma, mas também universal, ao mostrar que, diferente do que se acredita, a depressão no puerpério é muito comum. Dizem que quando nasce um filho, nasce a mãe. Mas nem sempre isso ocorre. E, sim, isso também é natural, também é humano.

   O documentário resgata como a caça às bruxas estigmatizou mulheres que não se encaixavam nos padrões estabelecidos pela sociedade patriarcal. No filme, a diretora projeta nas bruxas da História a figura de resistência, de força, daquelas que ainda que tenham sucumbido, atuaram na defesa de direitos fundamentais das mulheres e daquelas que, sobrevivendo, mantiveram vivas as tradições e epistemologia que a opressão misógina tentava extinguir. Mas o que, afinal, as bruxas teriam a ver com a depressão e o baby blues? Apesar disso não ser questão fechada no filme, o que fica latente é que, de algum modo, a sabedoria ancestral, essa que foi perseguida, marginalizada e oprimida durante a perseguição às mulheres sábias (aquelas que eram acusadas de bruxaria), pode ser uma via de cura ou, no mínimo, um amparo para as mulheres afetadas. Pode ou poderia (?), já que, de fato, a herança dessa sabedoria nos foi tirada em sua quase totalidade pelo processo misógino da caça às bruxas.

   O documentário traz relatos fortes e amorosos (sim, porque o amor por si mesmas e pelos filhos também está presente na montanha russa de sentimentos que se opera nesses casos) de mulheres que enfrentaram estados profundos de comprometimento psicológico e físico em decorrência dessa condição tão pouco tratada e tão negada pela sociedade patriarcal e conservadora. Esse filme, além de uma experiência cinematográfica bem-vinda, já que tem um tratamento de imagem, de construção de narrativa, de ritmo, tudo muito bem arranjado, também se constitui em uma tentativa de iniciar esse diálogo. O cinema também é espaço para se trazer à tona o que está escondido, disfarçado por baixo do senso comum conservador que insiste em não olhar para as feridas que levam tantas mulheres ao fim precoce.

   Nesse mesmo sentido, Morra, amor (2025), de Lynne Ramsay, retrata a depressão do puerpério que, no pacto misógino e patriarcal, não é compreendida nem corretamente tratada. Grace se perde de si mesma e a consequência disso é trágica. Resta a pergunta: se a depressão pós parto atingisse aos homens, será que ainda estaríamos tão longe de um tratamento adequado para ela? Em Canina (2025), de Marielle Heller, é o grito preso da personagem que se transforma em força vital e animalesca para mostrar que toda pessoa aprisionada tende a perder-se e, talvez, o único caminho de volta seja pelo Caos e pelas cinzas de uma fênix.

   O que todos esses filmes parecem ter em comum é o retrato da Mulher que antecede a mãe. Assim como o ser Mulher está, indelével, em quem nunca foi mãe. O que quero dizer é que essas histórias, ainda que tratem de mães, tratam de toda mulher, pois o que move as personagens não é a maternidade na qual se encontram, mas a constituição de Mulher que antecede esse momento. A sociedade tende a reduzir as mulheres, seja pela maternidade ou por quaisquer outras atribuições, pelo medo que o patriarcado tem dessa força significar seu fim. Mas é a partir dessas cinzas, dessa voz solta pela garganta, que vamos seguir tomando nosso espaço de segurança e de existência. Atentas e fortes.