Fragmentos ou textos na íntegra (poemas, contos, crônicas, romance)
COMO LER POEMAS DURANTE TEMPESTADES
Nic Cardeal
Em dias assim a gente não costumava sair de casa.
Dizia a mãe que o melhor a fazer
era guardar a esperança
para beber no café da manhã seguinte.
A gente suspendia os tapetes,
tirava as toalhas do varal
e deixava que a chuva molhasse
tão somente o essencial.
Que as terras duras fossem lavadas,
escorrendo para além dos buracos das minhocas
a água necessária à sede da semente!
Depois, a gente recolhia os chinelos,
fazia um chá de acalmar tempestades,
e se deitava lentamente entre as almofadas,
abria um livro de poemas e o lia em voz alta.
Assim, na quietude do tempo,
a gente viajava em poemas!
[Melhor serventia
para um dia de chuva
naquele tempo sem tempo
não havia]
Em dias tão molhados bebia-se o chá às cinco:
um brinde aos poetas preferidos!
Era de bom agouro, dizia a mãe,
quebrar a xícara após o último gole:
isso fazia com que o poema
queimasse na garganta
feito uma acha a crepitar na fogueira.
Saía então o poema em voz alta,
todo aquecido de chá entre as palavras benditas,
caindo ao fundo dos tímpanos,
ferindo o profundo do coração,
arrebanhando sentidos pelo caminho,
na viagem solitária da imaginação!
[Melhor serventia
para um poema lido em voz alta
em dia de chuva
não havia]
No entanto,
caso fosse realmente necessário
sair de casa em dias tão aguados,
a gente desobedecia a ordem do tempo
(e da mãe)
e ia.
Toda a gente (muita gente)
guardava os poemas de todas as horas
na garganta inquieta da palavra,
e partia em direção à vida.
A gente caminhava no apressado das horas,
corria, fugia da chuva, da ventania,
da vontade danada de não fazer mais nada,
além de ler poemas em voz alta
no aconchego da sala, da varanda ou da cozinha.
Não havia jeito,
nem contornos ou subterfúgios:
em dias chuvosos
a gente também precisava
deixar a vontade sozinha
para ir cuidar da vida.
Era desejado apenas
que a alma não esfriasse
no pingo gelado da água,
que a alma fosse acolhida
no pingo quente da esperança
aspergida d'alguma outra vida!
[Quem nos cuidaria
em dias inundados de águas,
de sentidos,
solidão ou abandono
(e aos poemas engasgados),
já que a vida [quase] toda
sempre estivera viva
só por causa da poesia?]
