Fragmentos ou textos na íntegra

Dia de festa na antiga Igreja dos Pretos de Curitiba! 

Primavera de 2009. Ipês e Manacás dão um  colorido especial a nossa capital. Impossível expressar  toda a emoção, o frio na barriga, a euforia, serenidade e  alegria que pairava no ar. Era como se toda a Bahia  estivesse presente, como se navios inteiros de almas  pretas estivessem conosco naqueles mágicos instantes.  

No início, a Igreja foi relutante e demorou alguns  anos até que o ambiente se tornasse realmente  harmônico. Ninguém sabia direito o que significava aquilo.  Era uma explosão de ritmos, cores e presenças  marcantes. A batucada carregada de ancestralidade, em  pleno centro histórico, despertava na população um misto  de curiosidade e admiração.  

Os adeptos das mais diversas religiões se  encontram, se ouvem e compartilham suas manifestações  de fé, com a tranquilidade de quem está entre amigos, acolhido e seguro. O povo de Umbanda e Candomblé, tão  machucado das experiências de dor que o racismo  religioso lhes impõe, experimentam a doçura de andar  pela cidade, com suas vestimentas lindas, paramentos,  turbantes, esbanjando autoestima. 

“Oh Babá, Obá-ô Babá, é a mãe do ouro que vem nos saudar. Ela vem trazendo o ouro, traz a paz de Oxalá, 

Que beleza, mamãe Oxum saudando todos os orixás...” 

Esta foi a primeira cantiga do primeiro xirê. Na  sequência, foi cantado praticamente só para Oxalá, o  Senhor do Pano Branco. Quando terminou o repertório, de  forma espontânea brotou a cantoria: 

“Um sorriso negro, um abraço negro, traz felicidade…” 

1 Melissa Reinehr é escritora, pesquisadora, diretora do Centro Cultural  Humaita – Centro de Estudo e Pesquisa da Arte e Cultura Afro-brasileira e  co-autora de diversos livros, com Candiero, sobre a temática afro paranaense. 

O povo se cumprimentava com abraços e sorrisos, em festa, em partilha de amizade selada em momentos de  profunda beleza e devoção. A ancestralidade desperta,  presente, fazia vibrar em nossas almas uma singela  canção. 

Para coroar a celebração, me lembro como se  fosse hoje, era uma sexta-feira, dia 20 de novembro, dia  da consciência negra. A patota de Cosme chegou para  iluminar! A professora Jane, presidente da escola de  samba Embaixadores da Alegria, apareceu de surpresa  com dois ônibus cheios de crianças, que vieram retribuir  os ensinamentos recebidos dias antes, com poesias e  presentes, para a nossa indescritível alegria.  

Viveram o momento único da primeira lavação das  escadarias da antiga Igreja do Rosário dos Pretos de São  Benedito, em Curitiba, trazendo ao ambiente um sentido  todo especial. Uma semana antes, elas haviam recebido 

a visita dos oficineiros do Brincarnaval: samba também se  aprende no colégio! Haviam se encantado com as aulas  dos professores Olinto, Nego Chandi, Marina e M. Kunta,  Crisfani, Carlinhos Malaquias, Ariadne, Debi, Mel e  Candiero.  

Após a celebração, descemos o cortejo cantando,  a uma só voz: 

“A força que mora n’água, não faz distinção de cor  e toda a cidade brilha...” 

Foi uma explosão de axé tão grande! Naquele  momento cada um contribuía de alguma forma. Os rostos  de pessoas queridas brilhavam de incontida alegria,  depois de lavar as escadarias com águas de cheiro.  

O primeiro cortejo saiu da Fonte da Memória e  desceu pelo Largo da Ordem. Quando passamos pela  Galeria Júlio Moreira, a sonoridade ficou espantosamente  linda, a beleza foi sobrenatural. A cantoria naquele  instante ganhou um tom diferente, um eco poderoso e as  pessoas bradavam, com a alma: 

“Salve o povo de Aruanda, salve meu pai Oxalá,  Salve Oxossi, salve os guias, salve Ogum Beira Mar.  Yemanjá, é a rainha do mar…” 

O perfume tomou conta do centro da cidade.  Pétalas coloridas espalharam o perfume, o colorido e a 

beleza das tradições de matrizes africanas. O evento  durou pouco mais de uma hora e deixou um gosto de  quero mais, de preciso demais dessa vitalidade, dessa  cura, dessa fé. Sim, foi indescritível. Somente a alma pode  traduzir o que aconteceu. E a poesia brotou! 

Batuqueiros da Fonte da Memória 

Olorum, afoxé, 

Olodumaré, Batuqueiro vão louvar 

Batuqueiros vão louvar, repicando o agogô 

Esta tradição antiga, que herdei do meu avô 

Proibiram os batuques, o fandango e a congada 

Hoje eu toco meu tambor no meio da rua e dou risada 

Batucando com meus irmãos, vamos plantando a tradição Que ao povo negro foi negada, dentro da legislação 

Em Curitiba somos muitos, eu nunca ando sozinho 

Batuqueiros saem da igreja e vão até o pelourinho 

Com o axé do meu ori, n’guzo do meu mutuê 

Hoje eu toco meu tambor e também chamo você 

Todo mundo aqui feliz, todo mundo orirerê 

Batuqueiros vão na fonte para se fortalecer 

Todos vestidos de branco, descem a ladeira em procissão É a nossa brincadeira, mas não é brinquedo não 

Chegando na Tiradentes, onde o Tempo é guardião 

Em silencio ali plantado, Iroko aguarda obrigação 

Composição: Mel e Candiero