Fragmentos
Madrigal
Como a luz que atrai, fulmina
Doudejante borboleta,
Esse olhar grande e fascina
Em ondas de luz, inquieta!
Inveja a trágica sina
Do seu amor, borboleta!
Íntimo rebate
Um alvoroço indistinto,
Bem como quando a ilusão
Nos revolta o coração,
Há muito n’alma o pressinto.
Se escuto o alarme que eu sinto
Causar-me funda impressão,
Revela-se o amor, distinto,
Como autor da sedição!
Sondo toda a sua grandeza…
Sutil, como quem perscruta
Desígnios da Natureza!
E receosa... irresoluta…
Vou fugir-lhe! e ele me apressa
E alto grita "A luta! A luta!"
Na orla do abismo
Levanta a tímida fronte,
Sublime mártir de amor!
Contempla n’outro horizonte
Fúlgido astro redentor
Poética imagem da rosa
Que a amar se definha e esvai!
Não sigas a mariposa
Que morre na luz que a atrai!
Arranca est’alma ao abismo,
Onde a pode arremessar
A onda do fatalismo!
Eu venho-te aconselhar
Filosofia e estoicismo,
Para essa dor conjurar.
Amor e sombra
Este mar de amor que sinto
Em alvoroço, no peito,
Debate-se sobre um leito
De dores num labirinto!
O horizonte triste e escuro
Que lugubremente obumbra
E envolve em fatal penumbra
Este mar de amor tão puro.
É a acerba desesperança!
- Um vendaval sem bonança -
Que me arrebata a alegria!
E a Morte - a cruel bacante,
Que aparece a todo o instante
A apontar-me a campa fria!
Morreu
(A memória de minha mãe no dia do seu aniversário natalício)
Mãe! perfume, graça extrema
Que me embala e acaricia!
Duplo e divinal poema:
– És minha mãe e és Maria.
Alma feita de bondade,
Acolhe o profundo grito
Desta dor, desta saudade,
Nos parámos do Infinito!
Sinto-me, Oh !mãe! sempre perto,
Sinto crente, a tua mão
– Desta vida no deserto…
Espírito e coração.
Guiar-me ! Sinto o bafejo
Sincero, acalentador, Do teu amoroso beijo
– Único real amor
Que o mundo me concedeu.
Abraçada à tua imagem,
Oh ! carinhosa miragem,
Repouso no seio teu.
A única estrela que me brilha
No meu sonho ou pesadelo,
És tu. Chamo-te; e ao apelo
Respondes: «Amada filha...»
Teu grande amor maternal,
No meu viver vacilante,
Traz-me, liberta do mal,
Presa ao teu belo semblante.
Meiga velhinha, alvo lírio,
Viver só p'ra te adorar
E o teu retrato ocultar
Desta febre no delírio.
Eis a única Ventura
Que me entretem esta vida!
Depois... tua sepultura
Será a minha, oh! mãe querida!
Cingidas no mesmo abraço,
Nossas almas sempre unidas,
Subirão, cindindo o espaço.
A essas mansões prometidas.
Na solidão da existência.
Do sofrimento no cúmulo,
Quero a vida d'além-túmulo,
Tua etérea convivência.
Tua fria lousa encerra
Todos, todos meus desejos:
Nada há para mim na terra
Que se compare aos teus beijos
Se me lembram teus afagos
Compensando-me horas tristes,
Vencem-me receios vagos…
Porque, oh! mãe! já não existes!
Anjo, santa, pomba mansa
Que do meu pombal voou:
– Pombal de amor, de esperança
Que a morte me aniquilou!
Sonho, às vezes, que ressurges
Do teu caixão mortuário!
E em arrojo extraordinário
Quando, assim, em sonhos surges
Por prender-te à vida, luto:
«Se morres... quero morrer!»
Olhas-me pálida... em luto…
Oh! minha mãe, podes crer
Que o que escalda o peito meu
Como intensivo cautério,
É esta palavra – Mistério,
É esta verdade – Morreu!
