Fragmentos da obra

Como o nó que aquece a lareira

O fogo da lareira dança.
Pra desatar os meus nós,
solto meus pensamentos
e voo.
Viajo entre os verbos,
corro pelas metáforas,
percorro em meio às frases,
passeio pela imaginação
e sonho entre os versos.

Distraio com as sombras, as miragens 
e com uma imagem distorcida sua. 
São apenas vestígios.

A chama dança sem cessar 
e a minha alma queima e arde
como o nó que aquece a lareira.

Meu poema dissolve lentamente
e voa como fumaça pela chaminé.
Estou sozinha.

É noite

Num universo avesso.
Num escuro reverso.
Amasso o travesseiro.
Incerta.
Discreta.
Abro a gaveta.
Pego a caneta
Solitária batalha com meu sono.
Começo uma nova criação incerta,
neste monólogo com um papel,
numa sensação de equívocos.
Eu calada
na calada da noite.
As palavras me enlaçam,
Uma poesia vagueia pelo ar.

Salmo

Quando vejo Seu olhar na brisa,
o vento ondulando os trigais,
a valsa de um Beija-Flor,
o canto dos passarinhos,
a gota de orvalho nas flores,
a lua refletida no mar,
o céu bordado de estrelas,
o sol dourado surgindo no mar e
morrendo rubro na serra,
percebo Seu Amor escorrendo na Terra
e Seu Poder refletido no Universo. 

Outra dimensão

Paralela à minha vida mansa e cautelosa,
ele vive em outra dimensão.
Sem porquês, sem explicações,
ele chega férvido, impetuoso,
ávido, mentiroso ou sonhador.
Chega num momento imprevisível;
seus versos agitam-se e agigantam-se;
invade-me por inteira
e me "dá o bote".

Trovas

Na caminhada da vida
entre as pedras e os fracassos,
em Deus existe guarida
e o conforto de seus braços.

Numa praia, ao som do mar
sobre a brancura da areia,
Deus conjuga o verbo amar
Enquanto a lua vagueia. 

A saudade chora

Minha saudade criou raízes
na minha casa desabitada.
Tão triste, vazia e solitária,
sem moradores, sem gargalhadas.

Minha saudade com nostalgia
vagueia entre suas lembranças.
Entra no antigo quarto sem móveis
que o tirano tempo fez deserto
(onde, jovem, eu ainda tinha sonhos).
Passa por um pequeno jardim,
escuta arrulhos de vários pombos,
por capricho ou por insano engano,
a saudade vê meu pai na rua
entre os alvoroçados pombos.

A saudade sente um doce aroma,
oscila e caminha até a cozinha,
(onde no passado era alegria):
ela vê minha mãe reclinada.
tem olhar vago, aflito e molhado...

Em silêncio, transcendo no tempo,
permaneço do lado de fora
desta casa que não é mais minha.
Sem coragem de nela entrar,
eu só deixo a saudade chorar.