Fragmentos da obra

Ventos e poentes

O caminhante poeta mapeia as ruas.
Flâneur,
percorre as ruas de Ponta Grossa para confinar a cosmópolis
numa objetiva grande-angular,
despojado das palavras e das reminiscências,
capta
o dinamismo da vida urbana
os diversos sentidos atribuídos à cidade
todas as suas tensões.
O olhar fixa (n)o presente,
ao reunir frisos e frestas,
observador
abre-se para os tempos modernos.

Num tempo em que a imagem se reproduz ad infinitum,
o presente, legado que todos herdamos são os seus inúmeros olhares
- converGENTES ou diverGENTES
que continuarão a nos encantar, a nos incomodar, a nos
alimentar
com seus ventos e seus poentes

salve salve Ponta Grossa
exuberante princesa dos campos gerais do Paraná

Subversão lilás

em minha irrestrita geografia
trilhos foram feitos para fugir
de sua própria condição
limítrofes
lineares
[líricos]
ao mesmo tempo, transitórios
fluidos
ou, simplesmente, paralelos
logo, arrisco
risco


menininho frágil
pelos livros
salvo do naufrágio

No caminho entre Gramado e Porto Alegre
está Feliz...
de Feliz, vi pela janela, a retífica de pneus Bons Princípios
e o posto Florada da Serra...
inesperadamente,
minha vida encheu-se de poesia…

Mulher

As Musas castigam meus céus
me despojam da cítara
das palavras
e das reminiscências

Caio, desnuda;
a aceitação e o espelho me protegem da obscuridade.
De quando em quando regressam
e calam meu silêncio,
seda enlouquecida em arabescos

A taça e o olhar

face ao frescor da princesa,
a taça secular, brutalmente esculpida por cronos,
vislumbra o olhar do fotógrafo
e, em cumplicidade, propõe um brinde


A russa

na sala do conselho de administração dos administradores,
carimbos, assinaturas e interesses
(in)tentam deletar a memória,
logo em frente,
indiferente,
a russa atravessa a rua, elegante em seu traje de cetim e cores.

Tempo de ser mulher…

à poda rasa
por entre espinhos
ainda
a rosa extravasa

Dez medidas de uma xícara

às raias da loucura
xicara
se escancara em cacos

num canto da pia
a xícara suspira
a perda da asa

na poética das coisas
xícara e pires
combinam parceria

não há xícara
que dê conta
de um chá de cadeira

o canto empoeirado
esconde a porcelana antiga
e uma xícara de saudades

camomila hortelã cidreira
tanto faz
na xícara fumegante
pausa e paz

no fundo da xícara
indigestas palavras amargam
o gosto e o gesto

oráculo
no fundo da xícara
a borra de café

filosofa e
desmascara
entre lágrima e chuva
há intervalo
para uma xícara de contemplação

dedos ensaiam volúpias
nas asas
da delicada xícara de porcelana