Fragmento da obra

O que é que tem no sótão?

Mudança encaixotada. Casa nova. Meu irmão subiu no sótão para arrumar a fiação.

— De hoje não passa, precisamos de luz.

Caixa de brinquedos antigos. Muitas bonecas. Panelinhas.

Coleção de chaveiro, papel de cartas. Carrinhos, moedas. Ursos de pelúcia. Tralha com que não se brinca mais.

— De hoje não passa. A avó já nos aguentou tempo demais. Vamos? Comece a juntar suas tralhas, menina!

A casa não está bem terminada, mas só se ouve dizer “Não aguento mais”. Na mesma tarde estávamos atravessando a cer ca, que divide o terreno da minha avó e o nosso, com caixas e caixas das nossas tralhas, que aguardavam há tempos ocupar a nova casa, guardadas na garagem da minha avó. Esse tempo todo, também nós ficamos guardados na casa da minha avó, só que no quarto de visitas.

— Com o tempo vamos ajeitando as coisas conforme dá.

Pelo menos na casa nova cada um tem seu quarto. Primeira vez que terei o meu.

Entro pela porta dos fundos. Na lavanderia, próximo ao tanque, um quadrado no forro do teto dava para o sótão.

— Não suba aí, menina, você ainda não fez o teste de alergia!

Ri sozinha. Teste de alergia. Teste de alegria me soava muito melhor, nesse eu passaria com certeza. Estava muito animada com a mudança.

De lá de cima eu ouvia meu irmão, arrastando fios, derrubando coisas. Isso aguçava minha imaginação. Sentia que dali vinha um bafo quente. Podia ser o sopro de alguém. O

último sopro. Será que alguém pode morrer de sopro? Sopro no coração já ouvi. Imaginei um bafo quente desses, fazendo o coração de uma pessoa suar até se esturricar. Ri sozinha outra vez. Nem sabia se coração suava de verdade.

Muita coisa para arrumar, mas casa nova sempre traz possibilidades de aventuras. Nunca gostei muito de mudanças, mas essa todos nós esperávamos há um tempão. Casa nova

e ainda mais com sótão, as aventuras podem se intensificar.

Será? E já nascia em mim uma expectativa enorme. Um sótão! O que será pode que haver lá?