Fragmentos
Conto “No trem”
- A primeira casa de que me lembro era um prédio alto e cinza para o qual nos mudamos quando fiz cinco anos. No pátio tinha um parquinho onde eu descia pra brincar, e no apartamento uma sacada com vista para o trilho do trem. Quando ele passava, perto das oito da noite, eu arrastava meu banquinho de madeira até a sacada e ficava olhando ele passar. Uma das únicas fotos que tenho da infância é de pé no banquinho, sorrindo para a câmera enquanto o trem passava ao fundo. Quem tirou a foto foi a minha mãe, e ela gostou tanto que colocou num porta retrato. Quando nos mudamos, um ano mais tarde, chorei muito porque achei que nunca mais veria o trem.
- Quando meus pais se separaram, morávamos num sobrado amarelo, e colado nele havia outro sobrado igualzinho onde vivia a Dona Neide, uma senhora de setenta anos, muito gentil e que às vezes fazia bolo de chocolate. Eu tinha nove anos, e não me lembro de muita coisa, mas volte e meia faço o exercício de tentar separar o real da invenção. Do que me lembro: meu pai quebrou a televisão, minha mãe jogou as roupas dele na calçada; meu pai quebrou os pratos de porcelana, minha mãe escondeu um gravador na sua pasta. Do que não me lembro: foram meses assim? Dias? Anos? Não importa quanto tente, tudo se mistura num grande borrão de imagens, o gosto metálico que o medo deixa na boca. Nos dias em que eles brigavam muito, Dona Neide chamava a polícia.
- Estava no banco de trás do carro quando ouvi sobre a separação, e só conseguia ver os cabelos castanhos de minha mãe enquanto ela dirigia. Parecia que tinha chorado. Eu tinha acabado de sair da escola, e tudo o que soube sobre aquela grande decisão foi resumida nos sete minutos que levava pra chegar até em casa. Ela disse: quando alguém te machuca de novo e de novo, você começa a se acostumar, e eu e o seu pai estávamos muito acostumados a fazer mal um pro outro. Ela disse: nessa situação é preciso que alguém termine, é preciso que alguém refaça as fechaduras, troque os cadeados e entre com uma medida protetiva. Foi o que eu fiz, ela disse. Quando chegamos em casa, as coisas dele já não estavam mais lá.
- Meu primeiro namoro sério foi com o Alexandre. Eu estava no primeiro ano da faculdade, dividindo apartamento com outras duas meninas. Alexandre tinha o dobro da minha idade. Nosso namoro durou três anos, e acho ele a pior pessoa que já conheci, o que diz muito. Ele era acomodado, autocentrado e controlador. Não sabia fazer arroz. Tinha um carro vermelho e uma coleção enorme de cartas de magic. Naqueles três anos nós terminamos muitas vezes, e cada vez que voltávamos parecia que algo tinha saído do lugar, que o encaixe já não era mais o mesmo, mas forçado, artificial. Estragávamos, perdíamos partes. Eu era nova e tinha muito medo de ficar sozinha, e aos poucos ele foi diminuindo, enquanto o custo de Alexandre foi crescendo. Da última vez, quando eu terminei pra valer, lembrei da conversa que minha mãe teve no carro, da porta fechada. Eu disse, Alexandre, fique longe de mim, eu disse fique longe e vá buscar as suas coisas ou jogo elas na calçada.
- Depois do divorcio, aquele ódio todo que minha mãe sentia pelo meu pai deixou de ter um propósito e aos poucos foi tendo que ser direcionado para outras coisas, para outras pessoas. Ela se irritava com frequência e tinha ataques de raiva, quebrava coisas pela casa inteira. Quando isso acontecia, eu me escondia no banheiro e trancava a porta. Uma vez, ela quebrou todos os pires da casa na parede. Uma vez, ela decidiu que eu era o problema e disse que nunca mais queria me ver. Quando me tranquei no banheiro, ela ligou para o meu pai e disse "vem pegar a menina ou juro que eu não sei o que faço".
- Depois do término, Alexandre continuou me procurando nas semanas seguintes. Quando parei de atender ao telefone, ele deu de estacionar o carro na frente da minha casa e na rua da minha faculdade. No começo tive medo, depois fiquei brava, depois passei a não sentir mais nada. Decidi ignorá-lo por completo e com alguma insistência, isso funcionou. Meu silêncio era forte. Depois que Alexandre parou de aparecer nunca mais vi ele. O alívio deu lugar para um vazio, um vazio bom, de não ter mais que me preocupar com isso. Uma parte de mim ainda achava que teria saudade, mas a verdade é que nunca tive. Depois que terminamos parece que não restou nada daquilo que pareceu um golpe de má sorte, em que eu estava no lugar errado na hora errada, um acidente, um trem descarrilhado, em que depois que limpam os vestígios ninguém que passa por ali pode dizer: teve um acidente aqui.
- Mas teve, e nele estava alguém que nunca mais vai dirigir da mesma forma, que nunca mais vai sair de casa sem verificar os freios, sem saber o som do vidro quando quebra, sem duvidar de todo e cada instinto, o gosto metálico do medo de acontecer de novo.
- Depois da minha mãe ter ligado muitas vezes, meu pai apareceu pra me buscar. Já era tarde da noite e estava chovendo, enfiei algumas coisas na mochila e fui embora com ele. Fazia meses que eu não via meu pai. Ele me levou pro apartamento onde morava sozinho, muito pequeno com dois quartos, um que servia de escritório, outro o quarto dele. "De manhã resolvemos", ele disse, e arrumou uma cama para mim no sofá.
- De manhã ninguém resolveu nada. Depois da escola, saímos comprar um colchão de ar, que ele instalou no escritório. Minha mãe, entendida de fim, ameaçou trocar as fechaduras. Aos poucos fomos buscar as minhas coisas, roupa, material, o porta retrato com a foto na sacada, o trem no fundo. Até hoje a família não entende porque não falo com minha mãe, e eu gostaria de explicar que estou tentando proteger a menina da foto, a menina que ficava feliz com tão pouco, enquanto todo o resto era imensurável. Não sei dizer quanto tempo passei olhando para o meu próprio rosto junto ao trem, tentando entender o que deu errado, parecia que um abismo nos separava. A criança da foto não sabia o que eu sabia, e eu não queria ter que contar pra ela.
