Fragmentos da obra

“E havia Vox, a Escriba.

A imagem graciosa de uma jovem usando um hábito de freira todo negro e segurando um pergaminho junto ao peito me levou às lágrimas. Vox, como muitas de seu tempo, foi uma donzela entregue para ser noiva de Cristo e ensinada a ser silenciosa, mas era muito afeita às palavras, tanto, que se tornou versada na escrita, oratória e idiomas estrangeiros. Sua fala desenvolta e afiada levantou suspeitas. E como forma de mantê-la sob controle e dar um exemplo às outras noviças, o bispo ordenou que sua língua fosse cortada. Mas no silêncio do claustro, ela ouviu a voz dos espíritos antigos de nomes indizíveis, que cantavam para o Deus Obscuro, e os compreendeu. Ela, e apenas ela, era capaz de compreender aquele idioma inexistente nos livros e na fala do mundo todo — já que não pertencia a ele. Apenas a ela era permitido ouvir a voz do Senhor das Trevas.”

Trecho de O Evangelho da Noite

“Então, o querubim subiu o mais alto que pôde, e, atrás dele, um rastro se estendia, feito pela luz que o abandonava enquanto seu corpo se transformava. Mais uma vez os rostos mudaram de lugar, colocando no centro a face draconiana, as escamas douradas caíam como estrelas, dando lugar a outras, vermelhas e escuras como o sangue de seus irmãos caídos. O querubim já não era mais o anjo de luz, mas um grande dragão vermelho em chamas, que arrancava anjos e estrelas do Céu. 

A grande besta encarou o Senhor dos Exércitos, desafiando-o com os olhos. Ele saiu da carruagem com uma enorme lança; com Ele, avançaram quatro seres de quatro faces, e o dragão os reconheceu como seus companheiros de ordem por muitas eras.

Lágrimas caíam de seus olhos escuros como abismos quando eles padeciam em suas garras.

Seus irmãos.

Sua família.”

Trecho de O Querubim de Três Faces

“Até então, havia amado apenas a mãe.

A galega de sotaque engraçado que a ensinou canções de um outro país e histórias sobre fadas. Eram dela os cabelos ruivos, as sardas e os olhos verdes.

Era dela o dom.

— As mulheres da minha família às vezes nascem assim. — disse a mãe, já pálida e acamada. — A gente vê quando a morte chega perto. A gente sabe.

— Eu não quero ver, mãe. Quero que a morte vá embora.

— Não, não diga isso. A morte é parte da vida. Lá na minha terra tem uma lenda sobre mulheres que vinham na porta das pessoas anunciar a morte. E aí elas choravam o nome da pessoa.

— Igual a dona Carmem. Ela vai em todos os velórios e chora.

— Mais ou menos, love, mais ou menos.

— Eu sou igual essas mulheres da sua terra?

— Um pouco.

— Eu prefiro as fadas.

— Eu sei.”

Trecho do conto A Banshee

“O tempo passou, e eu cresci enquanto paria meus filhos. Três deles. Todos os meninos, para a alegria de meu esposo, o qual se esforçava para se mostrar contente, dando-me alguns presentes considerados caros. Com o tempo ele tornou-se um pouco mais brando. Talvez por ter ouvido repetidas vezes seus companheiros e outros homens elogiando minha beleza e o meu ventre abençoado por três herdeiros. Isso o fez ter certo orgulho de mim, embora não trocássemos muitas palavras. Nosso filho mais novo adoeceu gravemente. A febre o acometeu de forma violenta e fez o corpo do meu pequeno Roland inchar. Dores lancinantes o dominaram e em dois dias começou a tossir sangue. Não havia nada mais a ser feito. Era preciso entregá-lo à floresta. Como uma mãe ficaria ao saber que deveria entregar seu filho nas mãos da morte? Sofri calada. O acordo era antigo, nem mesmo os padres negligenciavam. Certa vez um bispo soube das oferendas feitas e foi até a vila ameaçar punir aqueles que se prestassem a essa prática pagã. No dia seguinte sua cabeça foi encontrada sobre o altar da capela local.”

Trecho de A Trilogia da Floresta

“Cobrindo a parede do chão até quase o teto, os quadros traziam cada um uma figura. Mesmo no escuro, com a luz da lua que entrava pela janela sem cortinas, e se derramava sobre o estranho quadro, Diego viu os olhos severos sobre ele.

Estavam ali, observando-o em sua fraqueza enquanto praguejava e blasfemava. E ele se encolheu de medo e vergonha, diante de Deus, representado na pintura do meio, como um homem alto de cabelos longos e grisalhos e expressão austera.

Do seu lado direito, um cordeiro de pelo alvo, em sua infinita bondade e inocência, olhava para o Todo Poderoso. Diego podia jurar que ele chorava. Do lado esquerdo, o Cristo crucificado, o rosto torturado, o sangue escorrendo da têmpora perfurada por uma coroa de espinhos. O corpo magro, flagelado, o semblante inundado de dor e sofrimento.”

Trecho de Em Memória de Mim

“Minhas noites carecem de silêncio.

São elas, as malditas aves.

Grasnando incessantemente, me lembrando a todo momento que meu tempo aqui está se esgotando.

Eu só queria um pouco de paz. Fugir dos sons de buzinas, motores, sirenes e vozes. 

Fugir do ar sujo, da visão poluída e das lembranças da noite na qual fui feito de prisioneiro em minha própria casa. O bosque se ergue sombrio frente ao meu lar invasor. Ele impõe sua vontade. As silhuetas altas rasgam o véu da noite e da realidade, enquanto os malditos pássaros continuam gritando e zombando de mim.

Se eu soubesse, jamais teria assinado aquele contrato, jamais teria fugido da casa próxima ao centro da cidade e me escondido em um sítio neste vilarejo isolado.

Mas tudo me parecia tão bonito e tranquilo quando vi pela primeira vez.”

Trecho do conto As Araucárias

“No centro do lago, havia uma formação rochosa semelhante a uma ilha da qual subia uma robusta coluna branca: o principal pilar que sustenta o mundo. E nele, enrolada e adormecida, havia uma monstruosa serpente negra, maior do qualquer outra que já existira. Os anéis de seu corpo circundavam a coluna em uma espiral que superava a altura das mais altas montanhas. A cabeça repousava no topo do último anel, seus olhos estavam fechados, a boca entreaberta revelava os terríveis dentes níveos. As narinas arredondadas se dilatavam suavemente a cada inspiração demorada. Havia dez grandes chifres dourados em sua cabeça e as escamas escuras pareciam sugar qualquer luz que ali entrasse. R’hu sibilou baixinho. Nunca havia se sentido tão pequena e frágil. A presença da Grande Mãe Serpente, mesmo adormecida, inspirava reverência e horror. A pequena se aproximou lentamente do lago, atraída pela presença da Mãe. Sentiu o calor emanando dele, fazendo seus olhos arderem.”

Trecho do conto Das Entranhas da Terra