Fragmento da obra

Fragmento de ELASão Palavras: histórias sobre mulheres & livros - Editora Publisher, 2024

O DIA EM QUE UMA HISTÓRIA ACABOU

Muitos e muitos dias atrás, uma garota de vontades desenfreadas saiu de casa. Dezessete anos, herdeira de uma linhagem de mulheres audaciosas, sequer imaginava que o fato de ser mulher a impediria de fazer qualquer coisa nesta vida. Mas isso estava com as horas contadas.

Aqueles olhos curiosos entraram ingênuos pela universidade pública, que dali a míseros quatro anos pertenceriam a uma jornalista. Disseram que era proibido o estágio. E lá se foram os olhos curiosos desobedecerem e se meterem, entre homens, a fazer o que não sabiam. A garota aprendeu a editar um jornal fora da sala de aula. Gastou o primeiro salário em um livro. Tem a biografia de Olga Benário até hoje. "Lutei pelo justo, pelo bom e pelo melhor do mundo". Foi nesta época, mesmo sem se dar conta, que os passos da garota começaram a ficar menos cadenciados. Torceu nariz para Fernando Moraes. Nada tinha contra o autor, pelo contrário, era só o incômodo por mais uma narrativa que lhe interessava, contada pela voz masculina. Preferia que fosse Lygia, Clarice ou Cora.

O mundo dos homens nunca mais parou de provocá-la. Recém-formada, não passou em um teste de experiência porque a chefia disse que queria um homem para a vaga. Verdade ou desculpa, a bengala do patriarcado cutucou a garota. Acontece que ela não se deu por vencida. Conseguiu um emprego, na mesma empresa, em outra cidade. E por anos, bateu cartão, virou páginas, riu com os filhos, correu com os filhos, beijou o marido, mal viu o marido; e amou noticiar histórias reais como uma máquina.

Com o tempo, as histórias se repetiram. Não foi esse o problema. Foi ela se repetir e nem perceber quando nasceram dúvidas que passaram a assombrá-la: estou me tornando a mulher que quero ser? Qual é a minha luta? Se não for contemplar agora, quando?

Mas com a pauta sempre cheia, a folha meio em branco, não tinha tempo para pensar alto sobre essas "bobagens". Ou será que achava que não tinha? Hilda Hilst já havia alertado: "Antes havia ilusões, não havia? Morávamos nas ilusões". Só que a garota demorou para ler "A Obscena Senhora D”.

Não é que não lia, cresceu com as mãos ocupadas por livros. No entanto, nesta parte da história, ainda era uma garota à sombra do maquinismo do próprio dia a dia. A sua sorte é que esse capítulo também teve fim. Afinal, nossas histórias acabam muitas vezes no intervalo de uma vida. Finita. Toda vez pode ser a última.

Em uma manhã qualquer, a garota voltava da praia com a irmã mais velha e dois amigos. Tomaram café na Rua 24 horas, em Curitiba. Riram. Todos sonhavam. Meia hora depois, só a garota respirava. E seguia, aos pedaços, pela estrada. Alguns deles nunca mais foram remendados. Ela se lembra do livro que lia ouvindo o barulhinho do mar, O Código da Vinci, de Dan Brown. Para sempre, até hoje, ele ficou pela metade.

A garota quebrada achou que nunca mais perderia tempo com bobagens. De novo se enganou. Eram tantos boletos para pagar, dois filhos para criar, um nome para assinar, uma identidade para lustrar, justificativas verdadeiras para não saltar. Ainda bem que, além dos acertos e tropeços dessa garota, existe o movimento da vida. Ela foi demitida. O dia em que uma nova história começou. Ela poderia ter voltado para as redações, afinal, foi seu chão por quase vinte anos. Ela poderia ter recuado. Ouviu por aí: “Vai ficar só escrevendo, só inventando historinhas pra gente ler na hora de dormir?”. Acontece que quando a garota lê romances, ela desperta!

Certa vez, antes de entrar na “caverna" para escrever por horas seguidas, terminou de ler "Um teto todo seu", de Virginia Woolf. Era para ser só meia horinha antes do ofício. Não se conteve. Desobedeceu a ordem. E passou a manhã inteira virando páginas. Virgínia disse o que o coração da garota sentia: "é provável que a ficção contenha mais verdade que o fato".

A garota está se dando chance.

Afoita uma vida inteira, vive uma nova. Cultiva o hábito de contemplar. De ter coragem de escrever o que pensa, de fazer o que precisa, fugindo às vezes de tudo já visitado. Tem enxergado as mulheres não apenas em relação aos homens, mas a tudo que as cercam. Desenhou um coração no lugar do ponto final de Clarissa Pinkola Éstés, em A Ciranda das Mulheres Sábias. "Quando uma pessoa vive de verdade, todas as outras vivem também". Em algumas manhãs, os dedos se agitam no teclado como se fossem salvar vidas. A própria! Em outras, as mãos empacam. Em quase nenhuma, deixa de contemplar o ipê branco da janela do quarto de casal, que também virou seu ateliê "Imagine".

Quando distrações insistem em desencorajá-la, relê, em seu caderninho de bolso, rabiscos que a ajudam a seguir: "Tranque as bibliotecas, se quiser; mas não há portões, nem cadeados com os quais você conseguirá trancar a liberdade do meu pensamento" (Virginia Woolf). "Simone decidiu ser forte e manter uma rotina diária" (Simone de Beauvoir, a mulher de Montparnasse - uma história da busca por amor e liberdade, Caroline Bernard).

A garota parou de olhar para trás toda hora. De novo uma nova quebra da condição esperada. Decidiu criar uma rotina mais livre e criativa. Seria inútil perguntar como ou onde isso vai dar. Não sabe responder. Tem se permitido a extravagância de o agora bastar. Continua virando páginas na poltrona da sacada. Dançando descalça, enquanto Janis Joplin canta na sala só para ela. Interrompe o que estiver fazendo para ouvir as risadas da Valentina e do Pedro. Sente borboletas ao encontrar os olhos de mel do Tá também espiando fundo os seus. Ah... as ninharias preciosas, tão bom quando não as deixamos escapar! E a garota tem prestado atenção. Também tem sublinhado falas de outras mulheres e destacado a própria. Perdeu o interesse em definir quem é, tem grandes vontades em descobrir quem pode ser.

É claro que ainda falta. Vão sempre caber faltas. Somos publicadas e eleitas, mas há muito mais homens nas estantes das bibliotecas. Das quinze cadeiras da Câmara Municipal onde mora, apenas uma é ocupada por uma vereadora. Então, a garota decidiu continuar lutando, escrevendo e também contemplando. Às vezes falta inspiração. Às vezes falta grana. Só que agora ela compreende que as necessidades da vida são tortuosas. Os desejos do coração, espinhosos. Por isso, enquanto puder, ela dança e escreve. Escreve e dança. Até cair, e de novo se levantar. Não adianta mais ousarem lhe dizer por aí que o que anda fazendo é uma bobagem. A garota concorda com Chanel: "O ato mais corajoso ainda é pensar com a própria cabeça. Em voz alta".

- Eu quero escrever romances, livros de viagem, contos, crônicas... O que achar conveniente. Um dia desses, falou para o ipê branco sem nenhuma folha nem flor. Depois, parou de contemplá-lo e voltou a dançar os dedos no teclado, pensando em se dedicar para outras mulheres não ficarem muito longe do mundo dos livros. Essa era uma boa luta!

E se não fosse contemplar mais naquele instante, a garota cuidaria para não ser nunca. Porque, com os olhos atrevidos tateando frestas do cotidiano, agora ela sabe: quando mais ninguém ousa, é possível contemplar. E outra história começar.¹

¹ Este conto é baseado em fatos reais. E a autora é a protagonista da própria história.