Fragmentos da obra
Companheiras
Andaram, por aí, dizendo de tua morte,
que morreste de tristeza,
em agonia dos esquecidos...
nem extrema unção te deram,
na pressa de jogarem toda terra em cima.
Deram como causa de tua morte,
que ninguém mais te queria;
cheiravas a mofo,
nos baús esquecidos da saudade.
E tu não protestaste, velha amiga,
ficaste a espera de que alguém te procurasse.
Assim eu te encontrei
e juntas temos caminhado pela vida...
Tu, junto a mim, nas horas vazias,
eu, tentando, enternecida,
dar-te um vestido novo
e uma nova vida.
E vamos as duas, velhas companheiras,
contando histórias e destilando cantos.
Enquanto eu viver, viverás comigo.
Podem rir, quando passarmos juntas...
rirão de inveja... alguns, com ironia.
Mas que importa se estivermos juntas,
eu e tu, eterna poesia.
(Ferrante, 2012, p. 70)
Oração
Senhor, eu vim pela vida
rezando o mesmo sonho
murmurando a mesma prece;
um sonho todo tristonho,
um sonho sem amanhā
e fiz de todos meus dias
uma única oração.
Mas hoje, Senhor, só peço
não mais ternura ou amor;
dentro de minha amargura
ajudai-me a viver.
Ajudai-me Senhor.
(Ferrante, 1976, p. 56)
Minha fantasia
Passei pela vida
desejando uma fantasia
bordada de cristais,
queria muitos guizos
a ressoar alegremente
no festival da vida.
Queria nos cabelos
confetes coloridos;
queria um pedestal de serpentinas,
a lembrar antigos carnavais
de risos de pandeiros,
de gritos de cuícas,
de povo cantando,
de povo sambando,
de povo esquecendo
vivendo feliz.
E a minha fantasia
a refletir alegria
no brilho dos cristais
e os guizos a tilintar
e a felicidade sambando
nos meus olhos
e eu feliz.
Era assim que eu queria
a fantasia da minha vida
Mas minha vida só teve quarta-feira,
nunca teve carnaval.
(Ferrante, 2009, p. 33)
