Fragmentos
Boneca
Cecília Ferreira Leal
Bochechas coradas,
olhos brilhantes,
lábios pintados,
mais bela do que antes.
Lembra quando tinha escolha, quando se conhecia como Ariana. Hoje seu nome é outro,
chamam-na apenas de Ana.
Unhas postiças,
roupas extravagantes,
a bonequinha favorita
de todos os amantes.
Um dia perdeu a voz,
faltava tudo, falta grana.
Deixou de ser uma pessoa para ser de porcelana.
Não era o que queria.
Ninguém quer ser sufocada, mas quando nada funcionou, viu sua vida atada.
Bochechas coradas,
olhos brilhantes,
lábios pintados,
sonhos delirantes.
Lembra quando tinha desejos, de sua vidinha mundana,
quando podia ser quem quisesse, quando ainda era Ariana.
Unhas postiças,
roupas extravagantes,
a bonequinha favorita
em tantas estantes.
Não sente mais sua pele,
só fria porcelana.
Seu coração já não bate,
ele engana.
Não era seu sonho ser uma boneca,
um anjo, uma princesa, uma fada. Seu sonho era encontrar alguém.
O sonho de se sentir amada.
Bochechas coradas,
olhos delirantes,
lábios pintados,
palavras cortantes.
Sua mente falha a cada dia, abandonando essa vida insana, que a arrasta todas as noites em uma dança profana.
Unhas lascadas,
rostos arrogantes,
vestes rasgadas,
como sempre, como antes.
Podaram sua história
de forma desumana.
Destruíram seus sonhos,
pobre Ana.
Ela continua sorrindo,
mas não sobrou mais nada. Ninguém percebeu que
a bonequinha está quebrada.
